Superintendência de Saúde Universidade de São Paulo
27/03/2026

Mulheres vivem mais — mas vivem pior? Por Egídio Dórea Conex60

O paradoxo da saúde feminina

As mulheres vivem mais que os homens.
Esse é um dos dados mais conhecidos da demografia mundial.

No Brasil e em muitos outros países, a diferença gira em torno de seis anos a mais de expectativa de vida. À primeira vista, isso poderia ser visto como uma vantagem feminina.

Mas há um detalhe inquietante nessa história.

Viver mais não significa viver melhor.

Diversos estudos mostram que as mulheres passam mais anos da vida convivendo com doenças, limitações funcionais e pior qualidade de saúde. Em outras palavras, elas vivem mais — mas também passam mais tempo doentes.

Esse paradoxo levanta uma pergunta incômoda:
por que o sistema de saúde ainda falha tanto em cuidar das mulheres?


Um sistema que ouve menos as mulheres

Desde jovens, muitas mulheres desenvolvem uma relação constante com o sistema de saúde. A primeira menstruação geralmente marca o início de consultas ginecológicas regulares. Ao longo da vida, elas tendem a procurar mais atendimento médico, participar mais de exames preventivos e aderir com maior frequência a tratamentos prescritos.

Mesmo assim, há um fenômeno silencioso que atravessa a prática médica: as queixas femininas são frequentemente subestimadas.

Relatos de dor, fadiga, tontura ou mal-estar muitas vezes são interpretados como ansiedade, estresse ou exagero. Em alguns casos, sintomas reais são classificados como “somatização”.

Esse problema não é apenas uma questão de comunicação médica. Ele pode ter consequências graves.

Nas doenças cardiovasculares, por exemplo — principal causa de morte entre mulheres — os sintomas femininos podem ser diferentes dos clássicos descritos nos livros de medicina. Como esses sinais muitas vezes não são reconhecidos rapidamente, o diagnóstico pode ser mais tardio.


A ciência também excluiu as mulheres

Parte dessa desigualdade nasceu dentro da própria pesquisa científica.

Durante décadas, animais fêmeas foram evitados em estudos experimentais, e a participação feminina em ensaios clínicos era frequentemente limitada. O argumento mais comum era que as variações hormonais poderiam interferir nos resultados.

Na prática, isso significou que muitos medicamentos e tratamentos foram desenvolvidos e testados principalmente em homens.

Nos Estados Unidos, entre 1977 e 1993, diretrizes da Food and Drug Administration (FDA) chegaram a recomendar a exclusão de mulheres em idade fértil das fases iniciais de testes clínicos.

O resultado dessa história é claro: parte importante do conhecimento médico foi construída sem considerar plenamente as diferenças biológicas e clínicas entre homens e mulheres.


A menopausa: um exemplo de invisibilidade

Talvez nenhum exemplo seja tão simbólico quanto a menopausa.

Metade da população mundial atravessa essa fase da vida. Ela pode durar décadas e trazer impactos importantes para o corpo, o sono, a saúde mental, a vida sexual, o trabalho e a autonomia das mulheres.

Ainda assim, durante muito tempo o tema recebeu pouca atenção científica, médica e social.

Somente nos últimos anos a menopausa começou a ganhar espaço em pesquisas, políticas públicas e debates sobre saúde.

A pergunta que muitos especialistas fazem hoje é direta:
se os homens passassem por transformações fisiológicas semelhantes, durante décadas da vida adulta, esse silêncio teria durado tanto tempo?


O peso das desigualdades

A desigualdade na saúde feminina não acontece isoladamente. Ela se cruza com outras formas de desigualdade social.

Gênero, raça, classe social e orientação sexual influenciam quem tem acesso a diagnóstico, tratamento, pesquisa e investimento em saúde.

Mulheres — especialmente mulheres negras e de baixa renda — frequentemente enfrentam mais barreiras no acesso a cuidados de qualidade.


Viver mais não basta

Envelhecer com saúde é um dos grandes desafios do século XXI.

No Brasil, estimativas indicam que as mulheres vivem entre quatro e sete anos a mais que os homens em condições de saúde consideradas ruins, dependendo da metodologia utilizada.

Isso significa que milhões de mulheres passam uma parte significativa da velhice convivendo com doenças que poderiam ser prevenidas, diagnosticadas precocemente ou melhor tratadas.

Promover a saúde feminina ao longo da vida não é apenas uma questão de justiça social.
É também uma das estratégias mais poderosas para melhorar o bem-estar coletivo.

Porque longevidade, por si só, não é vitória.

O verdadeiro avanço será quando as mulheres puderem viver mais — e viver melhor.

confira o texto na integra: https://conex60.com.br/mulheres-vivem-mais-mas-vivem-pior/


Referências

  1. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tábuas de Mortalidade 2024.
  2. World Economic Forum. Closing the Women’s Health Gap: A $1 Trillion Opportunity to Improve Lives and Economies. 2024.
  3. National Institutes of Health (NIH). Office of Research on Women’s Health. History of Women’s Participation in Clinical Research.
  4. European Institute for Gender Equality (EIGE). Women live longer but in poorer health.
  5. Merkatz RB. Inclusion of Women in Clinical Trials: A Historical Overview of Scientific, Ethical, and Legal Issues. Journal of Obstetric, Gynecologic & Neonatal Nursing. 1998.
  6. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Posicionamento sobre Saúde Cardiovascular nas Mulheres. 2022.